domingo, 28 de abril de 2013

Boris Vian na Jamaica







                               
















Querida vem junto de mim 
Esta noite quero cantar 
Uma canção para ti 

Uma canção sem lágrimas 
Uma canção ligeira 
Uma canção de charme 

O charme das manhãs 
Envolvidas em bruma 
Em que valsam coelhos 

O charme dos pântanos 
Onde alegres crianças louras 
Pescam crocodilos








O charme dos prados 
Que se ceifam no Verão 
Para podermos rebolar-nos 

O charme das colheres 
Que rapam os pratos 
E a sopa de olhos claros 

O charme do ovo cozido 
Que permitiu a Colombo 
O truque mais luzido 

O charme das virtudes 
Que dão ao pecado 
O gosto do proibido









Podia ter-te cantado 
Uma canção de carvalho 
De ulmeiro ou de choupo 

Uma canção de plátano 
Uma canção de teca 
De rimas mais duráveis 

Mas sem ruído nem alarme 
Preferi experimentar 
Esta canção de charme 

Charme do velho notário 
Que no estúdio austero 
Denuncia o falsário









Ou o charme da chuva 
Escorrendo gotas de ouro 
Sobre o cobre do leito 

Charme do teu coração 
Que vejo junto ao meu 
Quando penso no bem-estar 

Ou o charme dos sóis 
Que giram sempre em volta 
De horizontes vermelhos 

E o charme dos dias 
Apagados da nossa vida 
Pela goma das noites 

Boris Vian, in "Canções e Poemas"











sexta-feira, 12 de abril de 2013

O tempo em camadas vividas...














         





As teias que envolvem o quadro escondido pelo tempo são como uma manta de filigrana
No fundo do sótão, por trás de móveis desconjuntados, da bola de basket careca de tantas partidas
A tela esquecida, na penumbra dos dias permanece guardando a história dum tempo, dum espaço...
Não feito o quadro de Dorian Gray, apenas se descascando imperceptível mente, devagar...















No dia em que se fez a mudança de casa, nesse dia ele seria relegado para o fundo do sótão
Esta casa do presente, já muito antiga, não tem  nenhuma parede onde ele possa ser pendurado

Nenhum prego, nenhum acessório poderá suster o peso da pintura, as paredes liquefazem-se

Nesta casa a luz faz com que o azul do mar da tela se derrame qual maré pelo chão, pelos quartos

As gaivotas volteando por cima do barco artesanal ouvem-se pelos corredores, ah o calor...

O calor, a brisa do mar não chega para amenizar o torpor , o chão de madeira ferve, a areia queima..














Por dentro de nós passam mundos, passados,  presentes e futuros, atropelam-se as noções elementares
O vivido, são camadas de vida vivida e em qualquer delas existimos intensamente, nos apaixonamos, nos angustiamos  parecendo que só aquele presente existiu, são tantos presentes
Camada a camada vamos vivendo a vida vivida, fluindo...
O que se vive no presente, é apenas mais uma camada a acrescentar às outras, às que passaram
É o momento real, que nos envolve, que nos faz agir e que nos faz pensar no impalpável  futuro
Ele virá, será presente e de imediato mais uma camada a sobrepor as outras...














A dimensão dos sonhos sonhados, das vontades, dos desejos, do que se imagina no cenário presente
Essa é a única dimensão que não se junta as camadas do tempo, a dimensão da mente
Ela projecta e desenha, pinta, ela representa só para ti, exclusivamente és tu e sonhas para ti
Dentro de nós estão mundos passados,  presentes e futuros, atropelam-se as noções elementares
O viver transforma-se numa grande aventura, numa viajem de constantes revelações, materiais, etéreas, whatever, maravilha !











terça-feira, 9 de abril de 2013

Por favor, guerra de novo, NÃO !









                                






Impossível não querer entender, tudo está a acontecer seguido e ao mesmo tempo.
Lá da Coreia ameaçam mentes loucas e cheias de raiva fazerem explodir o planeta com armamento nuclear...
Nós frustrados com a nossa vida sem futuro melhor, conformamo-nos por estar muito longe de Pyongyang e sorrimos seguros e em paz  na nossa merda de realidade...
... mas um mal nunca vem só, para fechar o ciclo da desesperança e do desengano, oiço o matraquear das AK47 em Muxungué e vejo os cidadãos tranquilos viajando de autocarro num suposto país em paz  a serem mortos sem compaixão, o dejá vu da guerra civil está aí, real...












A guerra, que aflige com os seus esquadrões o Mundo, 
É o tipo perfeito do erro da filosofia. 
A guerra, como tudo humano, quer alterar. 
Mas a guerra, mais do que tudo, quer alterar e alterar muito 
E alterar depressa. 
Mas a guerra inflige a morte. 
E a morte é o desprezo do Universo por nós. 
Tendo por consequência a morte, a guerra prova que é falsa. 
Sendo falsa, prova que é falso todo o querer alterar. 
Deixemos o universo exterior e os outros homens onde a Natureza os pôs. 
Tudo é orgulho e inconsciência. 
Tudo é querer mexer-se, fazer coisas, deixar rasto. 
Para o coração e o comandante dos esquadrões 
Regressa aos bocados o universo exterior. 
A química directa da Natureza 
Não deixa lugar vago para o pensamento. 
A humanidade é uma revolta de escravos. 
A humanidade é um governo usurpado pelo povo. 
Existe porque usurpou, mas erra porque usurpar é não ter direito. 
Deixai existir o mundo exterior e a humanidade natural! 
Paz a todas as coisas pré-humanas, mesmo no homem, 
Paz à essência inteiramente exterior do Universo! 

Alberto Caeiro, in "Poemas Inconjuntos" 
Heterónimo de Fernando Pessoa













Como é que se faz um País?

Será que não conseguem os homens ser solidários e deixar de lado a avidez vampírica pelo Poder?
Começo a crer que a tal mudança que diziam ir acontecer a 21 de Dezembro começa a fazer sentido...
Como uma onda de um Tsunami surrealmente enorme ela se vem aproximando desde então...
As relações, as atitudes, a fragilidade de todo o quotidiano, a perenidade de tudo como se  o presente fosse o último dia das nossas vidas, egoísmo, futilidade , culto do consumismo pelo consumismo, completamente oco de qualquer fundamento, ou seja, o boçalismo elevado a status dominante da sociedade, a insensibilidade para com o povo de um país riquíssimo que vive no limiar da miséria, a dança dos abutres, o riso das hienas, o cheiro a podre...
Que porra de merda é esta em que se transformou o meu país ?!?!
Obra mal feita, em vez construção responsável e em vez de se plantar para colher no futuro, colhem-se frutos híbridos, doentes no imediato .
O imediato é a religião e para isso o poder a qualquer preço como doutrina!!
A guerra muda tudo, destrói gerações, gasta tempo de vida, é uma merda !!
Tomara que esses senhores pelo menos consigam fazer calar as armas antes que nos desfaçamos em sangue !!










Triste será se um dia a vivermos de novo à base de  repolho e carapau, falarmos do país que Moçambique já era antes desta  2ª guerra civil e também falarmos daquele país grandioso em que Moçambique se poderia ter transformado, se os homens tivessem sido menos egoístas, menos cegos, menos orgulhosos, menos burros  neste momento!!!
Façamos uma  mistura de liberdade, ganância, tesouros naturais, egoísmo, tesão de  ditadura, deslumbramento, ódios, sentimentos de injustiça, desespero, pobreza  extrema, sem vergonhiçe, muito dinheiro, etc, deitemos esses ingredientes voláteis num oceano de bom senso e os deixemos esfriar.
Verificaremos que depois de frios estes ingredientes não têm mais poder para nos fazer enlouquecer a ponto de começarmo-nos a matar uns aos outros, entre irmãos; acordaremos como se tivéssemos estado a viver um pesadelo, tenho a certeza.
Consertemos as nossas almas, resgatemos a nossa essência de povo e falemos das coisas que nos separam chamando os bois pelos seus nomes !!!
Não subestimemos estes sinais, este aviso de Muxungué é um sinal muito forte.
Basta de impunidade, basta de se pensar que alguns têm mais direitos do que a maioria, sejamos honestos e construamos a paz, a felicidade e o desenvolvimento deste País  na base da verdade e do trabalho abnegado em prol de todos...
Parem esta palhaçada que já está a trazer de novo o luto provocado pelo ódio !!
Chega !!









quarta-feira, 3 de abril de 2013

Buddha , Buddha, I'm so tired....










                                           
















Minha sentida prece...

Buddha me ilumine, me dê força e lucidez, rogo do fundo da alma...
Buddha me acalme o sobressalto no peito, meu coração sai do lugar e chega à boca
Buddha  onde estás ?
Buddha dá um mirada neste teu devoto admirador, por favor !!!

Buddha  me dá só um pouco de paz que estou a morrer por dentro...
Buddha , estou tão cansado desta travessia do deserto, exausto ...
Buddha, não sei mais como buscar alento, me ajuda ou me dá ao menos a coragem para desistir...
Om mani padme hum 





                          







“A esse que é tolerante para com os intolerantes, doce para com os violentos, desapegado de tudo para com os apegados a tudo - a esse eu chamo de sábio. 
A esse que nada mais espera neste mundo, nem em um outro mundo, que é a tudo insensível, de tudo desprendido - a esse eu chamo de sábio. 

A esse que, não tendo mais ligações com os homens, superou aquelas que poderia ter com os deuses, que é completamente desprendido de tudo - a esse eu chamo de sábio.”
    Buddha





                          






Não é sobre as faltas alheias que devemos fixar a atenção, mas sobre o que nós mesmos deixamos de fazer. 
Fácil é ver a falta do próximo; difícil, a nossa própria. A dos outros, damos o maior relevo possível; a nossa, ao contrário, dissimulamos, como o trapaceiro esconde seus dados falsos. 
Que te pode interessar que outrem seja ou não culpado? 

Vem, amigo, e olha o teu próprio caminho! 

Que, pouco a pouco, sem se cansar, o sábio sopre sobre as impurezas de tua alma, como o ourives sopra sobre as partículas de prata. 
Pela atividade viril, pelo esforço vigilante, pela paz da alma e pelo domínio sobre si mesmo, o sábio pode fazer uma ilha que não submerge nas ondas. 
Calmo é o seu espírito, calma a sua palavra, calma a sua maneira de agir. 
Quando um homem, que não é crédulo, mas que conhece o Incriado (o Nirvana) , rompe assim suas amarras e diz adeus aos prazeres, torna-se o mais eminente dos mortais.”
Buddha