segunda-feira, 23 de julho de 2018

Gorillaz e a floresta petrificada









  
  Ao som de Gorillaz, um excerto de mais uma história a ser incluída no próximo livro de contos.










  O som da água está agora bem próximo e a correr Tristão aproxima-se dum lago idílico de águas cristalinas. Mergulha a cabeça e bebe aos goles dessa água fresca. Olha à sua volta e vê uma pequena e fina queda de água que alimenta este pequeno lago. Num recanto deste lago e fora de todo o contexto descrito, um montão de flores bravas do tamanho de rosas, de cor vermelha e amarela, colorem a dualidade massiva dos cinzentos de pedra e do verde intenso.








  Aproxima-se das flores e um perfume inebriante o envolve. Inala o perfume diretamente dum botão amarelo e enquanto o faz vê por trás das flores e quase junto ao lago, o vulto de uma rapariga estranhamente queda. Caminha ao seu encontro e estaca ainda a uma certa distância. A rapariga está coberta com andrajos e por trepadeiras finas e cheias de flores brancas minúsculas. O que deveria ter sido uma túnica é agora um apanhado de fiapos velhos e descoloridos de tecido.









  Nos pés da rapariga, uns pedaços de couro carcomido pelo tempo que parecem ter sido umas sandálias. Ela está junto a uma ramada baixa de uma árvore diferente das que a rodeiam, esta é uma árvore real. Tem a mão na boca, esboçava o gesto de levar algo à boca, o instante petrificou. Os olhos ficaram abertos. A boca entreaberta. A cor da sua pele é acinzentada. Esta rapariga está petrificada como o resto da floresta.










sexta-feira, 6 de abril de 2018

Bebi do Zambeze ao som do Rappa !





   

  
  
   

 




Bebi do Zambeze






A escrita de António Manna remete-nos enquanto leitores para universos e memórias da cultura africana. Ao longo de quatro contos, onde a realidade e a fantasia se entrecruzam, envoltos na presença de uma natureza encantada e atuante, são evidenciados temas como maldições, magias ancestrais, rituais e sofrimentos de amor.



             















Mas António Manna também aborda outro tipo de padecimentos, o de um povo que vive à mercê dos desígnios da guerra e da angustia da morte precoce, seja a que ocorre na savana, no asfalto da cidade ou na vontade do próprio, conforme nos conta em Memórias de uma Alma Errante «Morri duas vezes, primeiro de morte falsa e depois de morte real, e foi esta última que me transformou definitivamente numa alma errante.»





              




Este livro foi distinguido com a menção honrosa do Prémio INCM/Eugénio Lisboa 2017












À venda através do portal da Imprensa Nacional Casa da Moeda, Wook e na Livraria Bertrand:

https://www.incm.pt/portal/loja_detalhe.jsp?codigo=103294

https://www.wook.pt/livro/bebi-do-zambeze-antonio-manna/21716555

https://www.bertrand.pt/livro/bebi-do-zambeze-antonio-manna/21716555

quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

Van Morrison the great !











                                           






 



  




Fica cada vez menos habitual que os nossos velhos ídolos nos presenteiem com peças de arte, pois a criatividade nem sempre se mantém ao longo dos anos

Conversa de um sexagenário que curte a música com a mesma paixão com que por ela se apaixonou lá no inicio de mim mas, com a leveza e o refinado paladar de quem já ouviu várias décadas de boa música e exige mais,  muito mais dos criadores...














                                   














Van Morrison no alto dos seus 72 anos é um dos raros criadores que faz música ao mesmo tempo que respira, e não faz música má faz só e apenas boa música...

Ouvi pela primeira vez  Van Morrison em 1975 na cidade da Beira o famoso álbum " Hard Nose the Highway " e foi amor à primeira vista e para toda a vida.













                                       














Em 2017 lançou dois álbuns " Rock with the punches " e recentemente "Versátil", depois de em 2016 ter lançado uma preciosidade chamada "Keep me singing ".
Thank you Van Morrison !!









quarta-feira, 22 de novembro de 2017

Uma improvável Menção Honrosa













Pedro Pereira Lopes (Zambézia, 1987) é o vencedor da 1.ª edição do prémio Literário INCM/ Eugénio Lisboa.
O júri constituído pelo escritor moçambicano Ungulani Ba Ka Khosa, na qualidade de Presidente, por Teresa Manjate e Alexandra Pinho, deliberou, por unanimidade, atribuir o prémio de prosa literária INCM/Eugénio Lisboa ao texto “gente grave”, da autoria de Pedro Pereira Lopes, e uma menção honrosa a “Bebi do Zambeze”, de António Manna.
A atribuição do Prémio Literário INCM/Eugénio Lisboa a “gente grave” deve-se, segundo o júri, ao facto de o autor explorar um género pouco trabalhado em Moçambique e de combinar o policial e o fantástico. O júri sublinhou, também, a correção, coerência e coesão linguística da obra da autoria de Pereira Lopes. Por seu turno, a atribuição de menção honrosa a “Bebi do Zambeze” deve-se à riqueza do imaginário explorado pelo autor.


                  

"Bebi do Zambeze", são quatro contos que foram escritos durante as longas noites de turno nesta Central da Barragem de Cahora Bassa nos finais da década de 80.
Estiveram guardados conjuntamente com um imenso espólio de outros escritos durante cerca de 30 anos. 
Cheguei este ano aos 60 anos de idade e decidi que iria experimentar mostrar alguns destes trabalhos e surpresa, afinal até 
que não são assim tão ruins.
Estou feliz, tenho a sensação impossível de ter dado à luz, é uma felicidade sem palavras que a possa descrever.
O livro será publicado em Fevereiro e espero usar o resto do empoeirado e amarelado espólio manuscrito e também dactilografado num futuro bem próximo.






sábado, 23 de setembro de 2017

O amor de Sumbi







         
                                                                            jasmim do oriente













Essa leveza flui naturalmente quando as almas sorriem.
Às flores basta-lhes a cacimba da noite para de dia, exuberantes, perfumarem
 em coloridos tons florais, os passos dos que se amam.












Emocionados, de mãos dadas acariciam com as pontas dos dedos
os corações que se aconchegam .
Aureolados de uma plenitude macia e doce,
como o prazer terno que se sente ao afagar um pelo macio demais, 
os olhos sorvem o amor dos olhos nos olhos que se tocam, telepáticos...













Lânguidos movimentos que se querem perpétuos, nesse escorrer do mel pelos
lábios que se beijam, dessas almas que se tocam com uma delicadeza titubeante que só o desejo interrompe na sua urgência de arder...










Como é bom sorrir por dentro, gritar para o mundo ouvir que não se é mais triste não,
que afinal, mesmo tardando o amor verdadeiro chega e faz nascer em mim uma vontade louca de poetizar....











Escrever o que não é angústia, é um desafio do coração que já não é e não quer mais ser triste. 
A paixão pelas palavras não morreu quando fiquei feliz, preciso saber se elas terão sabor e texturas doces na mesma dimensão em que já foram amargor, desilusão e lágrimas...










quarta-feira, 16 de agosto de 2017

Nine Inch Nails e Shelley




























                                      Ozymandis


Eu encontrei um viajante de uma terra antiga
Que disse:—Duas gigantescas pernas de pedra sem torso
Erguem-se no deserto. Perto delas na areia,
Meio afundada, jaz um rosto partido, cuja expressão
E lábios franzidos e escárnio de frieza no comando
Dizem que seu escultor bem aquelas paixões leu
Que ainda sobrevivem, estampadas nessas partes sem vida,
A mão que os zombava e o coração que os alimentava.













E no pedestal estas palavras aparecem:
"Meu nome é Ozymandias, rei dos reis:
Contemplem minhas obras, ó poderosos, e desesperai-vos!"
Nada resta: junto à decadência
Das ruínas colossais, ilimitadas e nuas
As areias solitárias e inacabáveis estendem-se à distância.

Shelley











segunda-feira, 5 de junho de 2017

Florbela Espanca por aqui...



















Inconstância

Procurei o amor que me mentiu.
Pedi à Vida mais do que ela dava.
Eterna sonhadora edificava
Meu castelo de luz que me caiu!

Tanto clarão nas trevas refulgiu,
E tanto beijo a boca me queimava!
E era o sol que os longes deslumbrava
Igual a tanto sol que me fugiu!

Passei a vida a amar e a esquecer...
Um sol a apagar-se e outro a acender
Nas brumas dos atalhos por onde ando...

E este amor que assim me vai fugindo
É igual a outro amor que vai surgindo,
Que há de partir também... nem eu sei quando...







Em Busca do Amor

O meu Destino disse-me a chorar:
“Pela estrada da Vida vai andando,
E, aos que vires passar, interrogando
Acerca do Amor, que hás-de encontrar.”

Fui pela estrada a rir e a cantar,
As contas do meu sonho desfilando ...
E noite e dia, à chuva e ao luar,
Fui sempre caminhando e perguntando ...

Mesmo a um velho eu perguntei: “Velhinho,
Viste o Amor acaso em teu caminho?”
E o velho estremeceu ... olhou ... e riu ...

Agora pela estrada, já cansados,
Voltam todos pra trás desanimados ...
E eu paro a murmurar: “Ninguém o viu! ...”











Volúpia
No divino impudor da mocidade,
Nesse êxtase pagão que vence a sorte,
Num frêmito vibrante de ansiedade,
Dou-te o meu corpo prometido à morte!

A sombra entre a mentira e a verdade...
A nuvem que arrastou o vento norte...
- Meu corpo! Trago nele um vinho forte:
Meus beijos de volúpia e de maldade!

Trago dálias vermelhas no regaço...
São os dedos do sol quando te abraço,
Cravados no teu peito como lanças!

E do meu corpo os leves arabescos
Vão-te envolvendo em círculos dantescos
Felinamente, em voluptuosas danças...





Que Importa?...

Eu era a desdenhosa, a indif'rente.
Nunca sentira em mim o coração
Bater em violências de paixão
Como bate no peito à outra gente.

Agora, olhas-me tu altivamente,
Sem sombra de Desejo ou de emoção,
Enquanto a asa loira da ilusão
Dentro em mim se desdobra a um sol nascente.

Minh'alma, a pedra, transformou-se em fonte;
Como nascida em carinhoso monte
Toda ela é riso, e é frescura, e graça!

Nela refresca a boca um só instante...
Que importa?... Se o cansado viandante
Bebe em todas as font
es... quando passa?...