terça-feira, 28 de maio de 2013

Mia Couto - Prémio Camões 2013







                             







Mia Couto que não precisa de apresentações ganhou hoje o Prémio Camões, o maior galardão para os escrevinhadores da língua portuguesa.

Moçambique mais uma vez tem motivos para celebrar este feito que já foi  alcançado no passado pelo poeta mor José Craveirinha.
Parabéns Mia Couto, parabéns Literatura Moçambicana !!















O não desaparecimento de Maria Sombrinha


 Afinal, quantos lados tem o mundo no parecer dos olhos do   camaleão?
Já muita coisa foi vista neste mundo. Mas nunca se encontrou nada mais triste que caixão pequenino. Pense-se, antemanualmente, que esta estória arrisca conter morte de criança. Veremos a verdade dessa tristeza. Como diz o camaleão - em frente para apanhar o que ficou para trás.
Deu-se o caso numa família pobre, tão pobre que nem tinha doenças. Dessas em que se morre mesmo saudável. Não sendo pois espantável que esta narração acabe em luto. Em todo o mundo, os pobres têm essa estranha mania de morrerem muito. Um do mistérios dos lares famintos é falecerem tantos parentes e a família aumentar cada vez mais. Adiante, diria o camaleonino réptil.
A família de Maria Sombrinha vivia em tais misérias, que nem queria saber de dinheiro. A moeda é o grão de areia esfluindo entre os dedos? Pois, ali, nem dedos. Tudo começou com o pai de Sombrinha. Ele se sentou, uma noite, à cabeceira da mesa. Fez as rezas e olhou o tampo vazio.
- “Eh pá, esta mesa está diminuir!”
Os outros, em silêncio, balancearam a cabeça, em hipótese.
- “Vocês não estão a ver? Qualquer dia não temos onde comer.”
Ao se preparar para dormir, apontou o leito e chamou a mulher:
- “Esta cama cada dia está mais pequena. Um dia desses não tenho onde deitar.”
Debateram o assunto, timidamente, com o pai. Sugeriram que a razão pudesse ser inversa: o mundo é que estava a aumentar, encurralando a aldeiazinha. Fosse o caso dessa suposição, a aldeia estaria metida em vara de sete camisas. Mas o velho não arredou ideia. Casmurrou contra argumento alheio, ancorado na teima dele.
Por fim, sua visão minguante aconteceu com Sombrinha. Ele via o tamanho dela se acanhar, mais e mais pequenita. E se queixava, pressentimental:
- “Esta menina está-se a enxugar no poente...”
Todos se riam. O pai cada vez piorava. Face ao riso, o homem se remeteu à ausência. Se transferiu para as traseiras, se anichou entre desperdício e desembrulhos. A filha ainda solicitou comparência do mais velho.
- “Deixe o seu pai. lá onde está, ele não está em lugar nenhum.”
Valia a pena sombrear a miúda, minhocar-lhe o juízo? Mas Sombrinha não deixou de rimar com a alegria. Afinal, era ainda menos que adolescente, dada somente a brincriações. Sendo ainda tão menina, contudo, um certo dia ela se barrigou, carregada de outrem. Noutros termos: ela se apresentou grávida. Nove meses depois se estreava a mãe. Sem ter idade para ser filha como podia desempenhar maternidades?
A criancinha nasceu, de simples escorregão, tão minusculinha que era. A menina pesava tão nada que a mãe se esquecia dela em todo o lado. Ficava em qualquer canto sem queixa nem choro.
- “Essa menina só pára quieta!”, queixava-se Sombrinha.
Deram o nome à menininha: Maria Brisa. Que ela nem vento lembrava, simples aragem. Dona mãe ralhava, mas sem nunca fechar riso, tudo em disposições. Até que certa vez repararam em Maria Brisa. Porque a barriguinha dela crescia, parecia uma lua em estação cheia. Sombrinha ainda devaneou. Deveria ser um vazio mal digerido. Gases crescentes, arrotos tontos. Mas depois, os seios lhe incharam. E concluíram, em tremente arrepiação: a recém-nascida estava grávida! E, de facto, nem tardaram os nove meses. Maria Brisa dava à luz e Maria Sombrinha ascendia a mãe e avó quase em mesma ocasião. Sombrinha passou a tratar de igual seus rebentinhos - a filha e a filha da filha. Uma pendendo em cada pequenino seio.
A família deu conta, então, do que o pai antes anunciara: Sombrinha, afinal das contas, sempre se confirmava regredindo. De dia para dia ela ia ficando sempre menorzita. Não havia que iludir - as roupas iam sobrando, o leito ia crescendo. Até que ficou do mesmo tamanho da filha. Mas não se quedou por ali. Continuou definhando a pontos de competir com a neta.
Os parentes acreditaram que ela já chegara ao mínimo mas, afinal, ainda continuava a reduzir-se. Até que ficou do tamanho de uma unha negra. A mãe, as primas, as tias a procuravam, agulha em capinzal. Encontravam-na em meio de um anónimo buraco e lhe deixavam cair uma gotícula de leite.
- “Não deite de mais que ainda ela se afoga!”
Até que, um dia, a menina se extingiu, em idimensão. Sombrinha era incontemplável a vistas nuas. Choraram os familiares, sem conformidade. Como iriam ficar as duas orfãzinhas, ainda na gengivação de leite? A mãe ordenou que se fosse ao quintal e se trouxesse o esquecido pai. O velho entrou sem entender o motivo do chamamento. Mas, assim que passou a porta, ele olhou o nada e chamou, em encantado riso:
- “Sombrinha, que faz você nessa poeirinha?”
E depois pegou numa imperceptível luzinha e suspendeu-a no vazio dos braços. “Venha que eu vou cuidar de si”, murmurou enquanto regressava para o quintal da casa, nas traseiras da vida.

 Contos do nascer da Terra de Mia Couto











sábado, 18 de maio de 2013

Bhagavad - Guitá " A 13ª lição "








                                
















O estado de provação se estende fazendo já milhares de horas extraordinárias no meu viver.
Fiquei seco de palavras e só me sobrou o alento para beber a Sabedoria, a única possibilidade de continuar sem desfalecer definitivamente .
Então peguei meu Bhagavad - Guitá, meu Livro Sagrado e fui lendo e relendo esta lição.
 Krixna , o Ser supremo sob a forma humana (avatar ), guia o carro de Ardjuna  na batalha de 18 dias.

















O Senhor Krixna disse:

Este corpo, ó Filho de Kuntí,
chama-se o campo:quem bem o conhece
é proclamado pelos sábios, disto
cientes, como conhecedor do campo.


Fica sabendo, ó Grão Filho de Bhárata,
que sou, do campo conhecedor em todos os campos.
Conhecimento do campo e do seu conhecedor
é, por Mim, tido como o vero conhecimento.

Escuta, vou dizer-te agora e em resumo 
em que consiste o campo e qual a sua espécie,
a sua variedade e também sua origem,
e quem conhece o campo e quais os seus poderes.


Sábios- videntes, isto já muito cantaram
em vários hinos védicos, e nesses aforismos
referentes a Brahma e compostos p'la ordem
d'irrefutável, conclusivo raciocínio.










Os grandes elementos, a percepção do eu,
o intelecto mais o Não - manifestado,
e mais ainda os onze órgãos dos sentidos
e os cinco campos em que actuam os sentidos;


desejo, aversão, prazer e dor,
o agregado do corpo, a consciência
e a persistência, eis a descrição do campo,
em resumo, com suas modificações.


modéstia e total sinceridade
e não - violência e também honestidade,
paciência e serviço aos pés do Mestre ,
pureza, autodomínio e constância;

antipatia pelos objectos dos sentidos,
ausência d'egoísmo e o claro entendimento
dos malefícios, que provêm da doença
e da velhice e dor e nascimento e morte;











desprendimento, não - apego ante a família,
o filho, a mulher, a casa e tudo o mais,
e a consciência sempre igual, imperturbável,
ante o que vem que se deseja ou não deseja;


inteira devoção, a Mim só dirigida,
com rigorosa práctica d'Yôga,
vivendo num lugar, retiro solitário,
da multidão dos homens desgostoso,


em perpétua pesquisa só do conhecimento
d'Átma supremo, com a contínua percepção
d'alvo do conhecimento da verdade, eis
sabedoria: seu contrário é ignorância.






Átma -  O Eu, principio do ser , e o eu individual. O Eu e o eu exprimem, por assim dizer, as ideias de personalidade e de individualidade. Ardjuna - filho do Deus Indra, Um dos cinco heróis do Mahabharata
Brahma - Brahma não é Um, nem simples Unidade, porque tais noções provêm da nossa mente finita e Brahma não tem fim. Ele é Unico em Unidade inconcebível.
Dharma - Na sua acepção mais geral, significa maneira de ser, a natureza essencial de um ser.
Filho de Kuntí - Ardjuna
Upanixads - O epílogo dos Vedas, as escrituras sagradas, datadas do séc. XII antes de Cristo.














segunda-feira, 13 de maio de 2013

O Buddha em tons de azul...
























Venerado, Amado, Único, também meu Buddha !!!

Os caminhos se entrelaçam , desaparecem no nevoeiro que surge, simplesmente deixo de ver caminho algum...
A paz permanece plena me preenchendo o ser , como se assistisse ao meu próprio drama, tomo coca-cola e como pipocas na plateia vendo tudo acontecer sem imaginar o final .
Meu Buddha, não é entender que eu busco, não é sequer resolver meus problemas, apenas sorrir ...
Por dentro fazer sorrir os afectos e o bem querer, por fora sorrir dos cabelos aos pés !!
Buddha , mestre do apaziguamento e do desapego, explica-me como consigo estar em paz, sem receio algum quando tudo o que me rodeia ferve em azeite, se cozinhando, se torrando sem dó nem piedade?









O mar beatífico em cores suaves e o silêncio sem vento deixam a água feito um tapete mágico em tons de azul..
Pergunto ao Mestre, como beber essa aura, essa vibração irradiante do cenário gigantesco em tons de azul, como beber o que estou a ver e a sentir, a Presença Imensurável do Divino, que tudo envolve e deixar essa bênção luminosa escorrer para dentro do meu coração ?
Pergunto se algo mudaria se eu saísse  da plateia, subisse ao palco e termina-se marcial essa peça surreal...
Cantando um reggae para a cadeira vazia deixada por mim
; será que depois quando saísse do Teatro da vida, quando transpusesse as portas para a rua, encontraria algo para além dum vazio velado?
Buddha teu nirvana , tua luz e sabedoria abarcam os espíritos de todos nós e seguindo ínfimo em minha já imensa pequenez, vou soletrando teus pensamentos e consolidando minha paz !
Estou pronto já faz muito tempo, estou tranquilo já faz algum tempo, sinto sim que estou e que sou  !!!























"Um indivíduo pode ter sido iludido no passado. Mas depois corrige seu pensamento e torna-se uma pessoa desiludida. Ele, portanto, é como a lua que saiu de trás de uma nuvem escura, assim, ele ilumina o mundo. "Buddha




                           







"A escuridão não pode expulsar a escuridão: só a luz pode fazer isso. O ódio não pode expulsar o ódio: só o amor pode fazer isso."Buddha



                                                                                                                                                                                       
                                  




Existe uma única estrada e somente uma, e essa é a estrada que eu amo.
Eu a escolhi.
Quando trilho nessa estrada as esperanças brotam e o sorriso se abre em meu rosto.
Dessa estrada nunca, jamais fugirei.
Buddha