quarta-feira, 28 de agosto de 2013

Justin Timberlake e o amor...


















Justin Timberlake lançou esta peça de r&b de qualidade fina, álbum super premiado e com um dos melhores vídeos musicais de sempre:
  " Mirror"
Para mim este disco é uma homenagem ao amor, realizada com finesse e um extremo  bom gosto !!
















Amar é um sentimento imperial, ele não permite que nada se lhe sobreponha.
Dependendo do lado para onde ele puxe, nos amordaça a alma e nos faz penar angústias duradouras ou nos faz rejubilar, nos faz amar a vida.
Amor é o melhor que temos dentro de nós, nada nos leva tão longe como ele, faz-nos superarmo-nos.










O ser amado e sentir-se amado é o êxtase, é o sorriso escancarado do coração ...
Amar não significa paz e sossego, antes pelo contrário, traz-nos sim as dores mais lancinantes, as lágrimas mais sentidas até a vontade de morrer...
Faz-nos também sonhar e olhar o mundo com optimismo, fazer planos, mudar o rumo da vida, seguir o coração ...










Amar é a pele falando, são os poros vibrando, amar é morrer de prazer e ressuscitar para morrer de novo, infinitamente se repetindo... 
Quando se ama os olhos se enternecem e a voz é meiga e de dentro de nós vem  doçura e bem querer.
Amor é massa !! 







domingo, 25 de agosto de 2013

A Palavra & Fat Freddy's Drop




























... Sim Senhor, tudo o que queira, mas são as palavras as que cantam, as que sobem e baixam ... 
Prosterno-me diante delas... 
Amo-as, uno-me a elas, persigo-as, mordo-as, derreto-as ... 
Amo tanto as palavras ... 
As inesperadas ... 
As que avidamente a gente espera, espreita até que de repente caem ... 
Vocábulos amados ...
Brilham como pedras coloridas, saltam como peixes de prata, são espuma, fio, metal, orvalho ... 












Persigo algumas palavras ... 
São tão belas que quero colocá-las todas em meu poema ... 
Agarro-as no voo, quando vão zumbindo, e capturo-as, limpo-as, aparo-as, preparo-me diante do prato, sinto-as cristalinas, vibrantes, ebúrneas, vegetais, oleosas, como frutas, como algas, como ágatas, como azeitonas ... 
E então as revolvo, agito-as, bebo-as, sugo-as, trituro-as, adorno-as, liberto-as ... 
Deixo-as como estalactites em meu poema; como pedacinhos de madeira polida, como carvão, como restos de naufrágio, presentes da onda ... 
Tudo está na palavra ...








Uma ideia inteira muda porque uma palavra mudou de lugar ou porque outra se sentou como uma rainha dentro de uma frase que não a esperava e que a obedeceu ... 
Têm sombra, transparência, peso, plumas, pêlos, têm tudo o que, se lhes foi agregando de tanto vagar pelo rio, de tanto transmigrar de pátria, de tanto ser raízes ... 
São antiquíssimas e recentíssimas. 
Vivem no féretro escondido e na flor apenas desabrochada ... 
Que bom idioma o meu, que boa língua herdamos dos conquistadores torvos ... 
Estes andavam a passos largos pelas tremendas cordilheiras, pelas Américas encrespadas, buscando batatas, butifarras*, feijõezinhos, tabaco negro, ouro, milho, ovos fritos, com aquele apetite voraz que nunca mais, se viu no mundo ...









Tragavam tudo: religiões, pirâmides, tribos, idolatrias iguais às que eles traziam em suas grandes bolsas... Por onde passavam a terra ficava arrasada... 
Mas caíam das botas dos bárbaros, das barbas, dos elmos, das ferraduras. 
Como pedrinhas, as palavras luminosas que permaneceram aqui resplandecentes... o idioma. 
Saímos perdendo... 
Saímos ganhando... 
Levaram o ouro e nos deixaram o ouro... 
Levaram tudo e nos deixaram tudo... 
Deixaram-nos as palavras.

Pablo Neruda









Último álbum dos fabulosos Fat Freddy's Drop - "Blackbird" 2013




segunda-feira, 19 de agosto de 2013

os blues do lagarto - the doors













 Se as portas da percepção estivessem limpas, tudo apareceria ao homem como é: infinito.
                                                                                                                          William Blake













Posso fazer a terra parar no seu trilho.
 Fiz os carros azuis irem embora.
Posso fazer-me invisível ou pequeno.
Posso tornar-me gigante & atingir as
coisas mais distantes.
Eu posso mudar 
o curso da natureza.
Posso plantar-me em qualquer lado
em espaço ou tempo.
Posso citar os mortos.
Posso perceber eventos noutros mundos,
na minha mais profunda mente interior,
& nas mentes de outros.

Eu posso

Eu sou.
                                                                                                                                                              Jim Morrison













Sabem do febril progresso sob as estrelas?
Sabem que nós existimos?
Esqueceram porventura as chaves do Reino?
Já foram dados à luz e estão vivos?
Vamos reinventar os deuses e os mitos das idades;
Celebrar símbolos do mais fundo das antigas florestas (Esqueceram as lições da guerra pretérita)
Sabem que temos sido levados à matança por almirantes plácidos e que gordos e calmos generais se tornam lascivos perante o sangue jovem ?












O grão criador dos seres concede-nos uma hora mais pra mostrarmos nossas artes e completarmos as vidas, medo da morte no Avião;
E a noite era aquilo que a Noite deveria ser;
Uma garota, uma garrafa, e um abençoado sonho.
Espalhei a minha semente pelo coração da nação;
Injetei um gérmen no sangue da veia psíquica.










Abraço agora a poesia do negócio e torno-me – por um tempo – um “Príncipe da Indústria”
Um líder natural, um poeta, um Xamã, com alma de palhaço.
O que faço no meio da arena, na Praça de Touros;
Todas as figuras públicas lutando pela liderança
Estar bêbado é um bom disfarce.
Bebo para poder falar aos idiotas. O que me inclui. [...]
Adeus América, eu amei-te.

                                                                                              Jim Morrison






sexta-feira, 16 de agosto de 2013

Heliodoro Baptista & Maverick Sabre
















Paisagem com Poema em segundo Plano

       
I

«Tantos nomes que não há
para dizer o silêncio».
Através das palavras, as que sobraram
dos outros e se encurvam à luz
edificámos a casa, flores alucinantes
e a canganhiça do fogo eterno
que há no amor.
Com esta não invoco um nome
e o meu país, acocorado, volta-se de perfil
com suas mulheres magras e sombrias e trágicas
pegando fogo aos sexos extenuados
As quizumbas deixam de ladrar
quando o medo cessa e da paisagem em movimento
(os rios inúteis? o crepúsculo das vontades?
os cascos do remorso? as crianças sublevadas?)
nomeia-se, se embebe tipograficamente
a humildade dos vultos em fila
ante o impossível milagre dos pães.
Como no circo
há quem não bata palmas.
«Tantos nomes que não há
para dizer o silêncio»
mas lembro, soletro devagar:
nocturno e geralmente inacessível
um homem percorre todos os lugares
e volta-se escuramente
para dentro de si
- que é a única prisão disponível
para o tamanho da sua luz.
As estrelas baixam ao nível do chão
e guardam-no para a eternidade
que há em cada sono.











                                                 














II

Tudo veio de muito longe
(murmuram-no as mulheres expostas
acariciando o púbis chamuscado)
para todo este território
onde as formas rápidas e convulsas
explicam as cabeças submergidas
na vertigem fabulosa
das parábolas.
Da infância à adolescência
os meninos souberam-no pelo Índico
na concha cheia de suas mãos puras e arrebatadas:
a dimensão do real é sempre discutível
como o adivinharam há muito
as aves canoras inundando
a inteligência da terra.
Fluo e refluo no tempo e na sua sombra
e dissimulo-me no capim, nos corais, no jardim urbano,
nas orelhas apreensivas, na crispação de alguns cristais
e sobretudo nos músculos das palavras ausentes
a crescer no formidável espaço do poema
- o amor inundará tudo
até ao sabugo das unhas.
Das letras, em algumas noites,
são esses os sinais que recebemos.
























III

É isso: morre-se ou vive-se na ambiguidade
mas o amor empolga como nunca
antes em qualquer nervo desta galáxia.
Então pensamos:
por cima de toda a folha
há a luz, este surpreendimento
a suor de animais insaciados que se veste de nós
e de nós se assombra (ou inquieta, subverte?)
a urbana convivência
tecida em silogismos
e recamada de ódios.
As coisas, ah as outras coisas
surgem pela própria ausência.
E assim
há gente que ama a fome
pois sempre aprendeu dos novos fabulários:
a burla nasce quando a dúvida
acontece o simples e delicado povoado
onde o coração emite
as seculares ondas de repulsas.
As palavras amadurecem, transcendem-nos.
Como os dias. Este trajecto imemorial.
Os vãos escuros das escadas. Os estádios ao sol.
As vazias mesas. Uma criança estremunhada na noite.
O império dos sentidos. Uma braçada de folhas de mandioca.
Das mulheres feridas, a teimosia. Na pele, os mil olhos.
E insuspeita, delicadamente
a sombra reflexiva
(há séculos? desde ontem?)
de um escriba na audição
do poema que não fará.
Porque, hoje como nunca,
«tantos nomes que não há
para dizer o silêncio».


Beira, 85
IN Cadernos «Diálogo» 1
As Palavras Amadurecem – 1988