terça-feira, 25 de setembro de 2012

" - Please, play again for me Amy "





















Sentidos no âmago das cores dispersas, leves
são meus suspiros  e meus desassossegos sem rimas
misturando os sabores , diluindo as mãos nas mãos
encantando os olhares , olhares sem espelhos cristalinos
embaciados de lágrimas doces , pétala a pétala com cuidado
enquanto isso o vinho cor de sangue em vitral o copo torna
cantos sagrados de vozes dos deuses na terra, sem devoção
elevados aos píncaros da loucura não se despojam, nunca !!! 















 o pulsar do coração rimbomba dentro
 das praias ao longe a miragem grita surda
 enquanto sorrio para a lua amarelada em sépia
 deslavada foto encurvada como flores  secas de papel
 plantadas na soleira de cal ao sibilar dos pássaros da tarde
 a sombra dança ao sabor do vento, ao sabor
do amor que nunca acaba, brilha iridiscente e não fere... 











esses livros escolhidos , pedaços de almas nebulosas
despojos da dor e da lucidez são portas, são buracos negros
altares de flores brancas, de aguas perfumadas de incenso de jasmim
o mel e o bom whisky velho , as especiarias preferidas , o fumo
adocicados sabores e flautas de pan embalando os véus
no encontro dos sentidos somos ateus e inventamos cultos
lá, onde não se lembra mais nada fica a ilusão perfeita
fica o mistério do indizível,sossega a alma em alvoroço








domingo, 23 de setembro de 2012

Miguel Esteves Cardoso - o vero amor ...

                      



                                                                                                                                                       
                                    



A partir do contacto estreito com as bandas pós- punk e new wave da editora Factory, tais como Joy Division, New Order, Durutti Column ou The Fall, aquando da sua estada no Reino Unido, «MEC» (como era conhecido pelos fãs), deu-se a conhecer como autor de crónicas sobre música pop, publicadas nos jornais Se7e, O Jornal (actual Visão) ou Música & Som, avidamente lidas pelos jovens portugueses, em complemento à transmissão dessa música em programas como Rock em Stock, de Luís Filipe Barros, ou Rotação, Rolls Rock e Som da Frente, de António Sérgio, na Rádio Renascença e na Rádio Comercial.
Nessa época, dedicou-se também à crítica literária e cinematográfica, no Jornal de Letras, Artes e Ideias
Começou igualmente a ser presença assídua na rádio e na televisão, em parte devido à sua aparência invulgar e desajeitada de jovem intelectual ingénuo e perverso, e às suas intervenções imprevisíveis e desconcertantes, irónicas e irreverentes.



http://pt.wikipedia.org/wiki/Miguel_Esteves_Cardoso









...faço parte da geração que viveu este lado do MEC ao vivo e a cores...
O MEC e o Som da Frente do António Sérgio foram as portas para um mundo novo, inteligente e de extremo bom gosto...

Esta singela homenagem ao Miguel Esteves Cardoso e um muito obrigado por 
nos teres trazido, visionário, a garantia das grandes bandas antes de elas o serem ...
 Thanks também por teres sido o catalisador em grande estilo de tudo aquilo que precisávamos para legitimar o nosso modo contra corrente de olhar as coisas e o mundo...








Há coisas que não são para se perceberem. Esta é uma delas. Tenho uma coisa para dizer e não sei como hei-de dizê-la. Muito do que se segue pode ser, por isso, incompreensível. A culpa é minha. O que for incompreensível não é mesmo para se perceber. Não é por falta de clareza. Serei muito claro. Eu próprio percebo pouco do que tenho para dizer. Mas tenho de dizê-lo.
O que quero é fazer o elogio do amor puro. Parece-me que já ninguém se apaixona de verdade. Já ninguém quer viver um amor impossível. Já ninguém aceita amar sem uma razão. Hoje as pessoas apaixonam-se por uma questão de prática. Porque dá jeito. Porque são colegas e estão ali mesmo ao lado. Porque se dão bem e não se chateiam muito. Porque faz sentido. Porque é mais barato, por causa da casa. Por causa da cama. Por causa das cuecas e das calças e das contas da lavandaria.
Hoje em dia as pessoas fazem contratos pré-nupciais, discutem tudo de antemão, fazem planos e à mínima merdinha entram logo em "diálogo". O amor passou a ser passível de ser combinado. Os amantes tornaram-se sócios.Reúnem-se, discutem problemas, tomam decisões. O amor transformou-se numa variante psico-sócio-bio-ecológica de camaradagem. A paixão, que devia ser desmedida, é na medida do possível. O amor tornou-se uma questão prática. O resultado é que as pessoas, em vez de se apaixonarem de verdade, ficam "praticamente" apaixonadas.
Eu quero fazer o elogio do amor puro, do amor cego, do amor estúpido, do amor doente, do único amor verdadeiro que há, estou farto de conversas, farto de compreensões, farto de conveniências de serviço. 
Nunca vi namorados tão embrutecidos, tão cobardes e tão comodistas como os de hoje. Incapazes de um gesto largo, de correr um risco, de um rasgo de ousadia, são uma raça de telefoneiros e capangas de cantina, malta do "tá bem, tudo bem", tomadores de bicas, alcançadores de compromissos, bananóides, borra-botas, matadores do romance, romanticidas. Já ninguém se apaixona? Já ninguém aceita a paixão pura, a saudade sem fim, a tristeza, o desequilíbrio, o medo, o custo, o amor, a doença que é como um cancro a comer-nos o coração e que nos canta no peito ao mesmo tempo?





O amor é uma coisa, a vida é outra. O amor não é para ser uma ajudinha. Não é para ser o alívio, o repouso, o intervalo, a pancadinha nas costas, a pausa que refresca, o pronto-socorro da tortuosa estrada da vida, o nosso "dá lá um jeitinho sentimental". Odeio esta mania contemporânea por sopas e descanso. Odeio os novos casalinhos. Para onde quer que se olhe, já não se vê romance, gritaria, maluquice, facada, abraços, flores. O amor fechou a loja. Foi trespassada ao pessoal da pantufa e da serenidade. Amor é amor. É essa beleza. É esse perigo. O nosso amor não é para nos compreender, não é para nos ajudar, não é para nos fazer felizes. Tanto pode como não pode. Tanto faz. É uma questão de azar.
O nosso amor não é para nos amar, para nos levar de repente ao céu, a tempo ainda de apanhar um bocadinho de inferno aberto. O amor é uma coisa, a vida é outra. A vida às vezes mata o amor. A "vidinha" é uma convivência assassina. O amor puro não é um meio, não é um fim, não é um princípio, não é um destino. O amor puro é uma condição. Tem tanto a ver com a vida de cada um como o clima. O amor não se percebe. Não é para perceber. O amor é um estado de quem se sente. O amor é a nossa alma. É a nossa alma a desatar. A desatar a correr atrás do que não sabe, não apanha, não larga, não compreende.
O amor é uma verdade. É por isso que a ilusão é necessária. A ilusão é bonita, não faz mal. Que se invente e minta e sonhe o que quiser. O amor é uma coisa, a vida é outra. A realidade pode matar, o amor é mais bonito que a vida. A vida que se lixe. Num momento, num olhar, o coração apanha-se para sempre. Ama-se alguém. Por muito longe, por muito difícil, por muito desesperadamente. O coração guarda o que se nos escapa das mãos. E durante o dia e durante a vida, quando não esta lá quem se ama, não é ela que nos acompanha - é o nosso amor, o amor que se lhe tem. Não é para perceber. É sinal de amor puro não se perceber, amar e não se ter, querer e não guardar a esperança, doer sem ficar magoado,viver sozinho, triste, mas mais acompanhado de quem vive feliz. Não se pode ceder. Não se pode resistir. A vida é uma coisa, o amor é outra. A vida dura a Vida inteira, o amor não. 
Só um mundo de amor pode durar a vida inteira. E valê-la também. 

Miguel Esteves Cardoso, in 'Jornal Expresso'





quinta-feira, 20 de setembro de 2012

Hesse abraça Gibran











A verdade é um ideal tipicamente jovem, o amor, por seu turno, um ideal das pessoas maduras e daqueles que se esforçam por estar preparados para enfrentar a diminuição das energias e a morte. 

As pessoas que pensam só deixam de ambicionar a verdade quando se dão conta que o ser humano está extraordinariamente mal dotado pela natureza para o reconhecimento da verdade objectiva, pelo que a busca da verdade não poderá ser a actividade humana por excelência.
Mas também aqueles que jamais chegam a tais conclusões fazem, no decurso das suas experiências inconscientes, um percurso semelhante.






Ter consigo a verdade, a razão e o conhecimento, conseguir distinguir com precisão entre o Bem e o Mal, e, em consequência disso, poder julgar, punir e sentenciar, poder fazer e declarar a guerra - tudo isto é próprio dos jovens e é à juventude que assenta bem. 
Se, porém, quando envelhecemos, continuamos a ater-nos a estes ideais, fenece a já se si pouco vigorosa capacidade de «despertar» que possuímos, a capacidade de reconhecer instintivamente a verdade sobre-humana.








A vossa alegria é a vossa tristeza mascarada.
E o mesmo poço de onde sai o vosso riso esteve muitas vezes cheio de lágrimas.
E como poderá ser de outra maneira?
Quanto mais fundo a tristeza entrar no vosso ser, maior é a alegria que podereis conter.
A taça que contém o vosso vinho não é a mesma que foi feita no forno do oleiro?
E a lira que vos apanigua o espírito não é da mesma madeira com que foram esculpidas as facas?








Quando estiverdes alegres, olhai bem dentro do vosso coração e descobrireis que só aquele que vos deu tristezas vos dá também alegrias.
Quando estiverdes tristes, olhai novamente para dentro do vosso coração e vereis que na verdade estais a chorar por aquilo que foi a vossa alegria.
Alguns de vós dizeis, "A alegria é maior que a tristeza" e outros dirão "Não, a tristeza é maior".
Mas eu digo-vos que são inseparáveis.
Juntas vêm, e, quando uma se senta junto de vós lembrai-vos que a outra está a dormir na vossa
cama.
Na verdade, estais suspensos como balanças entre a vossa tristeza e a vossa alegria.
Só quando vos esvaziais ficais em equilíbrio e imóveis.
Quando o guardador de tesouros vos erguer para pesar o seu ouro e a sua prata, nem a vossa alegria nem a vossa tristeza se devem alterar.





segunda-feira, 17 de setembro de 2012

essa velha presença garantida...










Olá !!!
Puxa não te via faz tempo, até pensei que tinhas ido de vez...
Sabes, não tinha saudades nenhumas tuas, nenhumas mesmo...mas já que estás por aqui que tal me dizeres de tua justiça?
O tempo quando não apareces parece que pára e que nada acontece, é  a tranquilidade e quando penso nela agora na tua presença, é como se não tivesse nunca estado desassossegado ...







O antes da tua chegada tem um sabor a vazio, a algo que se dissipa  facilmente....
Essa perene tranquilidade nem que dure muito tempo  desfaz-se assim que reapareces...
 Tu és mais sumarenta que qualquer bem estar corpóreo, tu preenches o sentir duma forma inigualável, apertas o coração como uma garra e dominas, submetes...





Vens de novo ter comigo para quê?
Precisas como um piromaníaco de ver as almas a arder, bebes o sangue vital como um vampiro do espírito ...
A arte, não é mais que uma forma criada por ti para  retratar os desmandos que operas na mente de quem sente...
 Através dela materializas  as tuas posturas  implacáveis, mudas de aguilhão consoante o flanco  se  põe mais ou menos a jeito e cravas a  amargura sem contemplações ...
Quanto mais magoas mais expressão de sangue e lágrimas  tem a obra  que crias ...






  Como se trocasses de máscaras numa peça de teatro surrealista, ris-te de nós, crias a confusão nos sentimentos e nas certezas improváveis ...
Depois apareces irado e blasfemas deitando fumo pelo nariz como uma máscara chinesa e nós inseguros nos encolhemos na nossa vontade...
  Fazes com que tenhamos desprezo por nós próprios, pela nossa fraqueza humana e depois apareces cinicamente chorando como um palhaço triste...






Olhas-me frio e sem expressão, o que esperas para me abraçar?
Olha, sinceramente  não precisas fazê-lo, não precisas mesmo...
Não tens de fazer nada, sou teu alimento!!
 Afinal não basta só a tua presença para explicar tudo ?
Já sinto o chão a se liquefazer, não tarda e estarei nadando nas águas frias das tuas imposições, merda !!!





terça-feira, 11 de setembro de 2012

Allen Ginsberg - Erotic Lounge 8









   





 Ginsberg, mais um dos meus amados poetas malditos...
Personagem de filme, mente fora do seu tempo, um guru no sentido da liberdade de ser-se, louco, visionário, contra-corrente, rebelde...








um pedaço do Uivo...


Eu vi as melhores cabeças da minha geração destruídas pela loucura, famintos histéricos nus, se arrastando na aurora pelas ruas do bairro negro na fissura de um pico,
 hipsters1 de cabeça feita anjos ardendo por uma conexão celestial e ancestral com o dínamo estrelado ancestral na maquinaria da noite,
que pobreza e farrapos e olhos ocos e loucos sentaram fumando na escuridão sobrenatural dos apartamentos sem calafetação flutuando pelos tetos das cidades contemplando jazz,
que despiram seus cérebros ao Céu sob o El 2 e viram anjos muçulmanos cambaleando sobre telhados e iluminados,
que passaram por universidades com olhos serenos e radiantes alucinando Arkansas e tragédias de luz-Blake 3 entre os mestres de guerra,
que foram expulsos de universidades por pirarem & publicarem odes obscenas nas vidraças do crânio,
 que se encolheram em quartos barbudos e de cuecas, queimando dinheiro em cestos de lixo e escutando o Terror pela parede,
que levaram uma geral nos pentelhos voltando via Laredo 4 com um cinturão de maconha rumo a Nova York,
 que engoliram fogo em hotéis de quinta ou beberam terebentina no Beco do Paraíso 5, morte, ou purgatoriando seus torsos noite a noite com sonhos, com drogas, com pesadelos despertos, álcool e caralho e escrotos e fodas infinitas [...]

 1  Hipster, gíria dos anos 40 para drogado e marginal.
 2  El, ou “Elevated Train”, no original, refere-se ao elevado para o trem do metrô que existe em algumas cidades norte-americanas. El também é o nome hebraico para Deus.
 3  Referência ao poeta e visionário inglês William Blake, com o qual Ginsberg teria tido uma alucinação em 1948.
 4  Cidade texana que faz fronteira com o México.
 5  Paradise Alley, Viela ou Beco do Paraíso, em Nova York. Referência ao lugar onde morava a prostituta Mardou Fox, do romance Subterraneans, de Jack Kerouac.

http://revistacult.uol.com.br/home/2010/11/o-uivo-vivo-de-allen-ginsberg/














O peso do mundo 
         é o amor. 
Sob o fardo 
       da solidão, 
sob o fardo 
      da insatisfação 

       o peso 
o peso que carregamos 
        é o amor. 

Quem poderia negá-lo? 
          Em sonhos 
nos toca 
      o corpo, 
em pensamentos 
        constrói 
um milagre, 
         na imaginação 
aflige-se 
         até tornar-se 
humano - 

sai para fora do coração 
         ardendo de pureza - 

pois o fardo da vida 
          é o amor, 

mas nós carregamos o peso 
           cansados 
e assim temos que descansar 
nos braços do amor 
          finalmente 
temos que descansar nos braços 
           do amor. 

Nenhum descanso 
        sem amor, 
nenhum sono 
        sem sonhos 
de amor - 
           quer esteja eu louco ou frio, 
obcecado por anjos 
           ou por máquinas, 
o último desejo 
          é o amor 
- não pode ser amargo 
         não pode ser negado 
não pode ser contigo 
           quando negado: 

o peso é demasiado 
          - deve dar-se 
sem nada de volta 
         assim como o pensamento 
é dado 
         na solidão 
em toda a excelência 
         do seu excesso. 

Os corpos quentes 
          brilham juntos 
na escuridão, 
          a mão se move 
para o centro 
        da carne, 
a pele treme 
          na felicidade 
e a alma sobe 
         feliz até o olho - 

sim, sim, 
           é isso que 
eu queria, 
          eu sempre quis, 
eu sempre quis 
         voltar 
ao corpo 
         em que nasci.










http://pt.wikipedia.org/wiki/Allen_Ginsberg

terça-feira, 4 de setembro de 2012

"The The" estar...








                        


Quando parece que o mundo vai desabar, quando ficamos sem saber se amanhã cumpriremos nossos compromissos , pagaremos nossas contas, quando...







O dia seguinte nos surpreende, a situação afinal não é tão caótica, afinal até pagamos a maior parte do que devíamos,  afinal até dá para relaxar um pouco, afinal...






  Imprevisível é como se apresenta todo o incerto, o improvável é o que quase parece ser uma certeza...








Sonhando a vida improvisando soluções e planos, imberbes seres cósmicos, nos distraímos do essencial, nos perdemos na rotina  do formigueiro...






A estrela cadente ilumina o lago parado e pinta de prateado numa pincelada, aquela lambidela de luz, a sua passagem...
 Depois o lago fica reflectindo  impávido a  morosa efervescência da vida  estrelar...







amo os The The  para além da música ou das letras...
The The são alma, são cultura, são uma visão longínqua para além...
o génio incompreensivelmente belo de Matt Johnson e a guitarra dos Smiths, Johnny Marr inventando muito...


beyond love ...