Escondida nas folhas amarelecidas, a flor guarda do beijo,
o calor húmido dos lábios, na luz desse dia ao entardecer,
tecemos intrincados sonhos, plantámos pirilampos nas mãos
relemos corais, dos poemas na penumbra, refizemos o amor
O livro já era
velho, morava na sacola nómada dos meus dias
as pontas
amachucadas das folhas, diziam da teimosia da fala
deitado no banco noturno, junto
ao candeeiro do jardim, lia
o poeta das estepes, quando do breu
a deusa surgiu, ela e a flor
Dizia o bardo no meu peito,
do amor e do espaço entre as cordas
do alaúde, de não beber
do mesmo copo ou comer do mesmo pão,
quando ela se materializou
em mel, na correnteza das minhas veias,
no beijo levitámos,
luzente de pirilampos, o livro aberto nas mãos
O papel
cheira à sépia do tempo, as letras da capa descascadas,
senis,
repetem os olhares trocados, depois do poema arder e tudo
incendiar,
quando o véu se diluiu, a chama iluminou o rosto,
brilhou nos olhos
acendeu o beijo em fogo, no
regaço, nas mãos, deitada no livro, a flor
António Manna
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