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Blues, play the blues!

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                                                                 The Cotton Pickers , 1864 by  Winslow Homer Os blues são o plasma, o sentimento da seiva, são o sopro dos buzios ao vento nas rochas, na maré baixa São dedilhados harpejos, soam a sumarentos pomos do canho maduro,  embriagam,  amolecem na cadencia do lamento a paisagem, prenhe de justiça,  despovoada de gente feliz,  sim, de gente  sedenta de amor  Prenhe de almas que fecundam,  o canto sofrido nos algodoais por colher ao por do sol  ensanguentado de oiro,  cobertos de farrapos, os olhares esbugalhados,  o pé bate e mantém o compasso na poeira do chão massacrado pelo labor forçado, o compasso é gemido até à raiz dos calos das mãos que pedem perdão, pelos peca...

Gaia cansou-se

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Gaia cansada de ser violada desde sempre pela sua criação mais imperfeita, o homem, dorida e paciente lambe as velhas chagas e as feridas frescas, abertas e ensanguentadas  Gaia que surgiu do Caos e sonhou a sua obra perfeita,  constata agora que afinal errou, que criou a sua morte e o tempo de espera para que ela se redimisse  e alterasse o rumo da sua destruição, esgotou-se  Século após século o homem decepou os seus braços,  arrancou de dentro dela os seus órgãos, os seus ossos, ávido vampiro sugou a sua seiva, envenenou o ar  e cruel, plastificou as espécies do seu elemento líquido Bêbado de luxuria e para alimentar a sua vaidade,  fez mil buracos no seu corpo, na busca de óleo e pedras, depois intoxicou o ar e queimou os seus pulmões  que sufocados, derreteram os glaciares do seu equilíbrio,  Gaia ficou moribunda, muito debilitada, mas lúcida...

O silêncio e Van Morrison

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                                                            O segredo duplo, René Magritte - 1927 Se me perguntarem se eu quero ir, direi que sim, eu quero ir mas, perguntar-me-ão depois, queres ir afinal para onde? Direi que preciso de ir para qualquer lugar, que sinto que não estou em lugar algum Direi que pairar não é estar, que estar silêncio Se me perguntarem se eu quero ir, direi que é a urgência maior Não estar aqui e mesmo estando saber que não existe para onde ir Esse lugar que buscas, está dentro de ti, não é possível fazer dele um lugar para ir Não se fica nele, ficar nele é continuar a querer ir, a querer encontrar Passar por ele, conviver com ele para não sofrer, continuar a querer ir Estranho afã, o querer ir Pulsão líquida que se evapora e de novo se faz l...

Pertencer ao não espaço

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                                                  A ponte de Heráclito - René Magritte, 1935 Não pertenço a lado nenhum, não pertenço lá, não pertenço cá Nasci lá, cresci lá, no tempo em que o que era lá, era aqui também Lá era uma parte daqui, mas não era aqui, era uma mistura do que era lá com o que chegava daqui No fim da mistura, lá, sobrou só o lá e eu não sou só de lá, eu não sinto só o lá, então vim para aqui, onde nunca houve mistura onde falta o lá, aqui, só está o aqui Também não sinto o aqui, nunca pertenci só aqui, também sou de lá Será que sou sem lugar? Será que alguém pertence a algum lugar ou é tudo uma questão da argila de que somos feitos? Será que temos uma ideia errada do que é ser? Ser é o quê afinal? Nasci lá sob o regime daqui, cresci e fiz-me homem, o regime acabou, lá e a...

Letras dispersas

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                                                                                                                   Simon Adjiashvili 1992  A vida inteira perseguimos simples quimeras, as borboletas esquivam-se e a rede jogada enche-se de ar, o garoto não desiste corre de rede alçada, a borboleta dança suave num colorido elegante, esvoaça por entre o chilrear do xirico e o verde da folhagem some  deixando o poema inacabado Letras cristalizadas em palavras doces, como o algodão que humedece a semente oferecendo-lhe o sonho da vida que germina no pulsar da seiva a flor que sente As palavras ditas a palavra ...

À flor da pele

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                                     http://www.maryckennedy.com/about                                                                  Os dados misturam-se no agito das pulsões, nos sonhos nas mãos como num vaso chocam uns contra os outros, atirados com emoção soam a oco sobre a mesa,  rolam e gravam num desenho irrepetível o acaso Ah! As palavras sacudidas na concha das mãos não são jogadas, caminham pelos dedos,  uma, depois outra, todas, aninham-se no branco da mortalha, sobre a mesa perfazem o poema, não tem nome nem morada,  como se fora uma tatuagem das musas,  em cores à flor da pele ...

Os livros não têm caras

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                                                                                 The Passion of Creation  by Leonid Pasternak Os livros, o mundo interior de alguém, pouco importa de onde brota esse rio de palavras, não carece Os livros são recipientes surreais e arrumam, a dança e o sol, a história, o gesto e pensamentos em voz alta Os livros escondem mostrando, a angústia e o anseio na forma, o delírio do autor, as lágrimas silenciosas,  choradas vezes sem conta, repetidas  no papel manchado, rasuradas, perdidas no mundo interior  sob o olhar crítico das musas Os livros e quem os escreve não têm nada a ver, como a chuva quando cai e é só a chuva que cai, como o poema de regozijo e esperança,   abandonado na me...

Outono com Ella e Louis

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                                                                                         pintura de Leonid Afremov Outono uma folha amarelada tomba no ombro resvala para o chão um tapete de frutos podres folhas e o cheiro da terra O sol sorri ainda de peito alçado o calor finge que ainda não se recolheu no coração que bate feito savana a planície vibra e irradia  No Outono o sol vermelho tinge o pensamento o aceno ao sul e às monções é instintivo Parto o cálice da fantasia e inspiro o cair da tarde com amor e gáudio Outono a noite nítida erigirá altares e cantaremos à neblina e aos nevoeiros Afinal não é a beleza a mais perfeita invenção dos olhos da alma? Outono quando as l...

Eleições mesmo?

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                                                                            pintura de Pedro Mourana     Partem para elas como para uma corrida sabemos que será tudo menos tal Gastam a energia e o pouco dinheiro fingindo que são sérios e dançamos todos comemos e o carnaval é longo e oco Como uma onda revolta as pessoas fluem de lá para cá e de cá para lá, aos gritos, excitados como as crianças quando no circo  os palhaços e os malabaristas os levam ao êxtase Aqui o êxtase é feito de conspirações, promessas inverosímeis as velhas trapaças com marionetes ainda funcionam e o povo exulta, corre pelo areal, vai à loucura! Do mais lerdo ao mais iluminado parece que todos se prontificaram a assistir ao espetáculo sem guião, o ...