Mensagens

Imagem
  Teimaste em querer, perturbaste o silêncio dos gestos, acariciaste o pelo sedoso da perdição e assim perdeste, o ensombrado estado de graça, a pachorrenta via sacra dos sentidos adormecidos, voltaste ao inferno e ardeste Como pedras de aguçadas arestas, que beijaram sedentas bocas, ávidas de não morrer, desesperaram os prisioneiros, tristes, arrastaram-se sobre pedras afiadas, as almas feridas, os sorrisos exangues, trocistas, a fazer crer que era possível Não sabias da mudança das estações, nem do desgaste do sol achavas que podias esticar as cores, escrever cheiros, prender o amor numa gaiola de oiro, deixar o acaso desvendar o trilho, mas o céu baixou o tom, tocou no coração ferido, fez anoitecer Quimeras são mentiras como promessas, são contos de fantasia são como amores garantidos, almas gémeas, encontros do acaso são sorrisos rasgados com o brilho nos olhos, são falsos dizeres quantas vezes o que se não diz, tudo revela, no gesto, no silêncio  An...
Imagem
  Ao fim de quase seis anos, regresso ao princípio, onde tudo começou. Sim, foi aqui que comecei a publicar e era só o gosto de publicar... estávamos em 2008. As redes sociais, quiseram matar o Melomaníako, mas a previdência manteve-o vivo, em lume muito fraquinho. O regresso, vem depois de um processo de desintoxicação das redes sociais. Afinal o objectivo é só colocar na web, que melhor lugar que este. René Magritte "A clarividência", 1936 SIA-VUMA

Melomaníako no Facebook

Imagem
As postagens aqui estão em modo suspenso, agora estão a ser feitas no Facebook. Link no Facebook  

Blues, play the blues!

Imagem
                                                                 The Cotton Pickers , 1864 by  Winslow Homer Os blues são o plasma, o sentimento da seiva, são o sopro dos buzios ao vento nas rochas, na maré baixa São dedilhados harpejos, soam a sumarentos pomos do canho maduro,  embriagam,  amolecem na cadencia do lamento a paisagem, prenhe de justiça,  despovoada de gente feliz,  sim, de gente  sedenta de amor  Prenhe de almas que fecundam,  o canto sofrido nos algodoais por colher ao por do sol  ensanguentado de oiro,  cobertos de farrapos, os olhares esbugalhados,  o pé bate e mantém o compasso na poeira do chão massacrado pelo labor forçado, o compasso é gemido até à raiz dos calos das mãos que pedem perdão, pelos peca...

Gaia cansou-se

Imagem
Gaia cansada de ser violada desde sempre pela sua criação mais imperfeita, o homem, dorida e paciente lambe as velhas chagas e as feridas frescas, abertas e ensanguentadas  Gaia que surgiu do Caos e sonhou a sua obra perfeita,  constata agora que afinal errou, que criou a sua morte e o tempo de espera para que ela se redimisse  e alterasse o rumo da sua destruição, esgotou-se  Século após século o homem decepou os seus braços,  arrancou de dentro dela os seus órgãos, os seus ossos, ávido vampiro sugou a sua seiva, envenenou o ar  e cruel, plastificou as espécies do seu elemento líquido Bêbado de luxuria e para alimentar a sua vaidade,  fez mil buracos no seu corpo, na busca de óleo e pedras, depois intoxicou o ar e queimou os seus pulmões  que sufocados, derreteram os glaciares do seu equilíbrio,  Gaia ficou moribunda, muito debilitada, mas lúcida...

O silêncio e Van Morrison

Imagem
                                                            O segredo duplo, René Magritte - 1927 Se me perguntarem se eu quero ir, direi que sim, eu quero ir mas, perguntar-me-ão depois, queres ir afinal para onde? Direi que preciso de ir para qualquer lugar, que sinto que não estou em lugar algum Direi que pairar não é estar, que estar silêncio Se me perguntarem se eu quero ir, direi que é a urgência maior Não estar aqui e mesmo estando saber que não existe para onde ir Esse lugar que buscas, está dentro de ti, não é possível fazer dele um lugar para ir Não se fica nele, ficar nele é continuar a querer ir, a querer encontrar Passar por ele, conviver com ele para não sofrer, continuar a querer ir Estranho afã, o querer ir Pulsão líquida que se evapora e de novo se faz l...

Pertencer ao não espaço

Imagem
                                                  A ponte de Heráclito - René Magritte, 1935 Não pertenço a lado nenhum, não pertenço lá, não pertenço cá Nasci lá, cresci lá, no tempo em que o que era lá, era aqui também Lá era uma parte daqui, mas não era aqui, era uma mistura do que era lá com o que chegava daqui No fim da mistura, lá, sobrou só o lá e eu não sou só de lá, eu não sinto só o lá, então vim para aqui, onde nunca houve mistura onde falta o lá, aqui, só está o aqui Também não sinto o aqui, nunca pertenci só aqui, também sou de lá Será que sou sem lugar? Será que alguém pertence a algum lugar ou é tudo uma questão da argila de que somos feitos? Será que temos uma ideia errada do que é ser? Ser é o quê afinal? Nasci lá sob o regime daqui, cresci e fiz-me homem, o regime acabou, lá e a...

Letras dispersas

Imagem
                                                                                                                   Simon Adjiashvili 1992  A vida inteira perseguimos simples quimeras, as borboletas esquivam-se e a rede jogada enche-se de ar, o garoto não desiste corre de rede alçada, a borboleta dança suave num colorido elegante, esvoaça por entre o chilrear do xirico e o verde da folhagem some  deixando o poema inacabado Letras cristalizadas em palavras doces, como o algodão que humedece a semente oferecendo-lhe o sonho da vida que germina no pulsar da seiva a flor que sente As palavras ditas a palavra ...

À flor da pele

Imagem
                                     http://www.maryckennedy.com/about                                                                  Os dados misturam-se no agito das pulsões, nos sonhos nas mãos como num vaso chocam uns contra os outros, atirados com emoção soam a oco sobre a mesa,  rolam e gravam num desenho irrepetível o acaso Ah! As palavras sacudidas na concha das mãos não são jogadas, caminham pelos dedos,  uma, depois outra, todas, aninham-se no branco da mortalha, sobre a mesa perfazem o poema, não tem nome nem morada,  como se fora uma tatuagem das musas,  em cores à flor da pele ...

Os livros não têm caras

Imagem
                                                                                 The Passion of Creation  by Leonid Pasternak Os livros, o mundo interior de alguém, pouco importa de onde brota esse rio de palavras, não carece Os livros são recipientes surreais e arrumam, a dança e o sol, a história, o gesto e pensamentos em voz alta Os livros escondem mostrando, a angústia e o anseio na forma, o delírio do autor, as lágrimas silenciosas,  choradas vezes sem conta, repetidas  no papel manchado, rasuradas, perdidas no mundo interior  sob o olhar crítico das musas Os livros e quem os escreve não têm nada a ver, como a chuva quando cai e é só a chuva que cai, como o poema de regozijo e esperança,   abandonado na me...